Cláudia
Sperb: Mosaicos entre Musas e Serpentes
Prof. Dr. Marcos Ferreira Santos, USP
www.marculus.net
"Chega
mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta,
sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que
lhe deres:
- Trouxeste a chave?" Carlos Drummond de Andrade,
“Procura da Poesia” (1973)
O
belíssimo tapete de mosaicos que agora cobre a praça
do Museu Histórico do Instituto Butantan (SP), com
o concurso das mãos de mais de 150 artistas entre
os gaúchos e aqueles outros que se somaram no cimentar
as peças no chão, não é apenas mais um registro da
alta capacidade poética e criativa da artista plástica
desde há muito fascinada com as serpentes. Os mosaicos
de Cláudia escondem e revelam algo mais.
Projeto que se estende desde 2005, Cláudia deixa,
momentaneamente, suas xilogravuras e as matrizes em
madeira, delicada e obcecadamente cavoucadas, as peles
impressas no papel, o cheiro da tinta e as impressões
para vivenciar um outro momento importante de seu
processo artístico: não se trata mais do registro
das impressões mas do rejuntar dos cacos.
Os azulejos quebrados sob o impacto do martelo do
velho ferreiro ancestral, e que perdem sua unidade
original, se convertem em cacos espalhados caoticamente
sobre o chão. Os cacos vão sendo cuidadosamente recolhidos,
re-agrupados pela forma ou pela cor, e, então, sob
a lâmina do alicate torquês, o desbaste dos cantos
a encontrar uma nova forma. Este universo de cacos
estilhaçados e reconfigurados, multicores, das mais
variadas espessuras e matizes, é o universo dolorido
de quem se estilhaça nas várias possibilidades de
ser buscando um caminho. O seu caminho.
Mas, sabemos bem, Cláudia não faz desta busca uma
empresa solitária. As pessoas são parte de seu caminho.
Então, convida, traz para Morro Reuter (RS) em seu
sítio-refúgio-atelier, aproxima, seduz, compartilha
sonhos e desejos, o mate amargo do chimarrão na circulação
fraterna, a comida sobre a mesa da amizade, conversa
e converte com seu sorriso maroto de menina grande
e celestes olhos atemporais de deusa nórdica. Já não
está só. São várias mãos e almas rejuntando os cacos
todos. Escolhe-se o caco desejado, desbasta um pouco
mais, se cola sobre a talagarça, e pouco a pouco,
a imagem emerge do caos na figuração bizantina do
ícone que sai do mistério do invisível para tornar
visível o caminho de dentro.
Eterna buscadora, Cláudia não esconde sua alegria
na criação coletiva que a acompanha há tantos anos
desde os trabalhadores de construção civil, sapateiros,
e tantos outros. Mas, o que inspira tanto estas pessoas
a deixarem suas marcas nas serpentes, aranhas, escorpiões
e outros tantos animais no chão daquela praça que
agora se imortaliza?
A palavra “mosaico” tem sido muitas vezes
associada, etimologicamente, à idéia de algo “feito
por Moisés”, indicando seu caráter sagrado na
tradição judaico-cristã e seu auge no início da idade
média em Bizâncio. No entanto, este mesmo caráter
sagrado se revela nas tradições mais ancestrais, sobretudo,
no mundo grego. Mosaico também pode ser interpretado
como aquilo que é “inspirado pelas Musas”
(“musaicum”). Filhas de Mnemosine,
a deusa da Memória, e do próprio Zeus, são as musas
as personificações das artes... aquilo sempre a nos
lembrar dos deuses.
Todo aedo, isto é, o cantor ancestral grego, pedia
permissão e inspiração às Musas para praticar seu
ofício de poeta a narrar os épicos, os dramas, os
mitos. O ilustre Hesíodo, pastor que imortalizou com
sua Teogonia, o nascimento dos deuses, inicia seu
poema com o mesmo pedido:“pelas Musas heliconíades
comecemos a cantar”. Ou ainda quando poetiza:
“impeliram-me a hinear o ser dos venturosos sempre
vivos e a elas primeiro e por último sempre cantar.”
Muito embora, os cantores (aedos) não fossem videntes,
pela inspiração das musas, podiam ter a arte da manthéia:
visões do futuro e adivinhações em seus cantos. Neste
sentido, as musas nos podem conceder a revelação da
verdade (alethéia, o não-esquecimento), como
também fazer esquecer os males nos mergulhando no
rio Lethe (rio do esquecimento) ao fluir
das experiências das artes.
Curioso é que o caráter pastoril e agrícola do mundo
grego irá associar as musas também às ninfas da montanha
(sobretudo, o monte Helicon de Hesíodo: “elas
tem o grande e divino monte Helicon”, diz Hesíodo).
Assim como as moiras (senhoras do destino), as graças
(personificações da beleza e da beatitude), as górgonas
(aquelas que petrificam com seu olhar) são entidades
múltiplas que estão, profundamente, ligadas à terra
onde se encontram seus locais de culto: florestas,
árvores, lagos, montanhas.
Ninfa significa “noiva” em grego, “aquilo
que é velado”, ou ainda, “a mulher da montanha”.
Tais como as musas, as ninfas também podem levar as
pessoas ao frenesi, ao êxtase de uma experiência sagrada,
ao entheousiasmos (“entrar na alegria de
deus”, entusiasmo). Portanto, as ninfas e musas nos
inspiram a cantar a memória, rememorando o passado,
aclarando os sentidos do presente e vislumbrando o
futuro nos cânticos proféticos.
Parece-me que nossa ninfa, Cláudia Sperb, no alto
de seu atelier no Morro Reuter (um dos pontos mais
altos do Rio Grande do Sul), como “a mulher da
montanha”, se revela como musa a inspirar aqueles
que se aproximam dela e a trazê-los para a Arte. Não
qualquer arte, nem modismos pós-modernos, nem seqüestros
de galerias neo-liberais, nem academicismos estéreis,
mas a arte ancestral de encontrar-se através do Outro,
diálogo, busca, construção coletiva. As musas e as
ninfas nos esposam a alma para o centramento de si
através do processo criativo e da experiência estética.
É o próprio Hesíodo que nos concede a chave interpretativa
em seu verso na Teogonia: “mas por que me vem
isto de carvalho e de pedra?”
Das árvores que rodeiam a casa de Cláudia Sperb saíram,
simbolicamente, o carvalho das matrizes de madeiras
para as xilogravuras. Agora saem as pedras (cacos
de azulejos) para o trabalho inspirado pelas musas,
mosaicos.
É das mãos da menina-grande, deusa nórdica, ninfa
da montanha, musa entre o esquecimento necessário
e a memória que refresca o caminhar, que a obra ganha
vida e colorido, colar os cacos na argamassa pela
talagarça e, pacientemente, preencher os espaços vazios,
os vãos e desvãos da existência, entre caco e caco,
com o rejunte possível. Massas que a água vai temperar
entre os dedos da mão sábia – porque já muito experimentou
para encontrar o ponto de equilíbrio, temperança,
sophrozyne – a colar e rejuntar, esconder e revelar.
Depois é limpar com um pano os excessos da vida...
e admirar... ad-mirar...
juntar-se ao olhar...
"Mitohermenêutica
das Serpentes nas xilogravuras de Cláudia Sperb"
A
mão guia os devaneios em sulcos profundos aprendendo
as trilhas das fibras da madeira. Seus sonhos vigorosos
se embalam no leito da goiva. Incisiva, a calha de
ferro corta a carne macia, resistente e amante do
cedro, singrando ferpas que caem no chão como o espírito
que deixa o imaginário e se concretiza nas linhas
sinuosas da matriz. Seus calos nas mãos de menina
atestam o poder da vontade sobre a matéria e, ao mesmo
tempo, a sedução da matéria sobre a alma.
A forma oblonga se recheia de padrões, desenhos, texturas
que se imbricam como os retalhos do casaco de um arlequim.
Salta a serpente do relevo gravado pacientemente sobre
a antiga face lisa do torel. Parece se movimentar.
Na realidade, se movimenta sob os nossos olhos d'alma
que reconhecem em sua rodilha, a busca do centro,
o esquema cíclico do eterno retorno, a circunferência
que está dentro de nós e o centro que está em toda
parte. Diz um mito hindustani que o universo foi criado
por uma grande serpente que, ao se enrodilhar, abraçou
todas as estrelas que passaram a ornar a sua pele.
Sua cabeça e sua cauda se aproximam no labirinto que
se forma.
Cláudia Sperb, a menina das mãos trabalhadoras busca
este centro. Com exposições em Valência (Espanha,
1987), Taipei (China, 1991 e 1992), Havana (Cuba,
1991), Calcutá (Índia, 1991), Rio Grande do Sul (1991,
1995 e 1996), no Instituto Butantan (1996 e 1998),
além de sempre exercitar oficinas de xilogravura,
nos contemplou também com seu trabalho na Faculdade
de Educação da Universidade de São Paulo, durante
o I Encontro sobre Imaginário, Cultura e Educação,
do CICE – Centro de Investigações do Imaginário, Cultura
e Educação, em 1998. Encantada pela serpente ancestral
que não tem patas, não ouve, não diz, mas que, contraditoriamente,
nos leva, nos escuta e tudo nos fala em seu silêncio
arquetipal, em sua presença atenta e em seu movimento
rastejante, a leitora de Bachelard e de Valéry sabe
que a busca é a resposta.
Ao mesmo tempo em que grava sobre a madeira, prepara
a matriz, imprime com a mão (ela não usa prensas)
seu espírito que renasce na delicada folha de papel
japonês com o negrume e o dourado das tinturas, e
ensina. Com a fala cantada de quem nasceu no céu às
avessas do pampa, docemente educa a mão e a vontade
do operário, da criança, do incrédulo tímido e do
curioso candidato a artesão. Em 1991 trabalhou com
operários da construção civil. Sua maestria cultiva
mestres futuros nos aprendizes de hoje que navegam
indecisos na proa da goiva, sulcando na face receptiva
da madeira, suas próprias imagens.
Cláudia ouviu de um contador de histórias sobre a
troca de pele das serpentes que precisam crescer e
de nossas peles sensíveis que, igualmente, trocamos
quando crescemos na alma. Não tem dúvidas: lá está
a padronagem da serpente sobre a superfície e a insinuante
serpente branca, vazia, luminosa, crescendo... Ouviu
também sobre a demorada e terna cópula de até 72 horas.
Se deixa guiar fielmente pela imagem e lá está: duas
serpentes que se entrelaçam feito arabesco e cujas
texturas se confundem, ternamente, no fogo das chamas
que fazem das fibras da madeira, a ramagem pictórica
do ritmo da criação – o vai-e-vem, sístole e diástole
das raízes. Não é o próprio Bachelard que nos diz
que a madeira secreta o fogo em seu interior?
Em outro devaneio, a alma explode e a xilogravura
mostra a pele aberta da serpente: estriada, raiada,
exposta e plana como um corte histológico do tronco
verticalizante da árvore. O jogo geométrico dos detalhes
oculta a composição viva dos fractais de nossa sensibilidade.
E novamente se funde na impressão a pele e a fibra
– a razão sensível e a vontade - num momento de repouso
em que deslizamos pelo labirinto, da vertigem de sua
borda, sendo vorados pela experiência até o seu vórtice
.
Cláudia nos remete para dentro de nós mesmos. Nos
serpenteia as profundezas quando vemos a superfície
matizada do papel. Aprendeu com a serpente os mistérios
do oroboros: ciclo que se repete na constância do
fluxo do tempo. A madeira sobre a qual forja a matriz
também é a madeira-mãe do papel sobre o qual se imprime
a xilogravura. A arte milenar chinesa se atualiza
sob os olhos luminosamente azuis da menina-mãe que,
incessantemente, trabalha, talha, grava a vida, engravida...
A serpente se sublima. Evapora como sílfide e nos
fica a brisa leve de sua ascenção/mergulho ao reino
do eterno recomeço. Então, Sperb usa a forja vigorosa
de suas pequenas mãos para matriciar a pele que ficou.
Delicadas e esvoaçantes tiras de pele suspensas no
ar nos atraem a mão, a face, o corpo todo e, se fiéis
à força da imagem, nos enredamos no interior desta
instalação, tal como meninos e meninas entre as caudas
das pipas que, lá encima, enamoram Bóreas e os Zéfiros.
Como as serpentes de madeira que os africanos deixam
sobre a cama para engravidar a mulher, Cláudia nos
engravida de devaneios no serpentear da busca. Gravita
entre os quatro elementos para nos lembrar do devaneio,
da vontade, do repouso e da intimidade, do movimento.
Com fibra, esculpe as fibras da vida e da madeira.
Rompe aqui, aprofunda ali, segue-as acolá. Ao final,
o ciclo repete: serpente e raiz, madeira e papel,
resina e tintura. No olhar que busca, o silêncio,
serpentinamente, tudo fala.
E novamente, Cláudia Sperb, a menina-mestre das goivas
geradoras de vida na matriz-madeira que imprime e
prima pela própria vida, nos presenteia com sua trajetória
serpenteante. Novamente, o olhar desliza pelo claro-escuro
do jogo crepuscular entre os padrões da impressão.
A pressão do papel japonês sobre a matriz da xilogravura
nos lembra a fusão do corpo e do espírito, espaço
e tintura... De repente, a pele fina da xilogravura,
ao deixar o ventre da matriz, se desprende lentamente...
Como um novo ser, nos revela a epifania da criação.
E aqui, justamente, Sperb nos surpreende novamente.
A mesma temática das serpentes não se esgota. Gota
a gota, escorre como o veneno ofídico: princípio de
morte e, contraditoriamente, também princípio de vida.
Doadora de sentido, labiríntica, nos atrai para o
seu interior e nos expulsa do cotidiano banal. Algo
se revela. Epifania?
Epidérmica, a nova série de Sperb tem uma qualidade
ontológica: nos remete ao Ser em sua abertura permanente.
Os padrões e as escamas da serpente, delicadamente,
impressas em tintura branca sobre o papel branco,
adquire a insustentável leveza do Ser, lembrando a
obra de Milan Kundera. A xilogravura flutua, leve
e densa. Sperb consegue reproduzir na sua xilogravura
a metamorfose da troca de pele: muda.
Muda - silêncio sem palavras; muda - troca de lugar;
muda - transmutação. São várias as mudas na pele e
as mudas de pele. Não se passa indiferente diante
da obra. A mão hesita e quer tocar a superfície da
pele-xilogravura. Por que? Ela é a capa do Ser que
se expõe. Ser que cresce, ser que aumenta de volume,
ser que aprofunda sua sensibilidade até que a pele-metamorfose
se funda com o sangue que alimenta a vida transbordante
da criação. Me lembro da epiderme das mãos na dançarina
hindustani na dança shivaya da criação do universo:
mudras. Não seria a serpente também a representação
da energia kundalini na espinha dorsal? Epifania?
Sperb vai além da pele. Penetra no corpo do Ser. Como
tatuagem penetra através da pele para nos imprimir
suas imagens arquetípicas. Parte e todo se remetem
constantemente. Cada veio aberto canaliza a tintura
para o espaço intocado. Cada xilogravura canaliza
nosso olhar e alma para o espaço intocado da própria
alma. Então, saltita ébrio de paixão o vermelho arterial,
dizendo dos veios abertos. Ela, menina-deusa, brinca
de vida ao criar seu vermelho. Mãe-serpente, aqui
se distancia do réptil: não se aquece com o ambiente
externo. Ela própria aquece o ambiente. Seu vermelho
vibra, em cruz, na totalização dos espaços, o vínculo
da pele e do sangue. Epifania?
Como ignorar este duplo apelo desta outra série da
obra de Cláudia Sperb, O Jardim das Serpentes?
A pele, epidermicamente, fina e fria a se desprender
da serpente e seu sangue quente a jorrar telúrico;
a se oferecer em sacrifício à vida. Parafraseando
nosso inesquecível Merleau-Ponty: "esta obra
exigia esta vida". Não foi Cláudia quem escolheu
as serpentes. As serpentes a escolheram. Ser Sperb
é serpente. Pele e Ente. O que aparece e o que se
esconde nas profundezas do Ser.
Sim. A obra é uma epifania: na faina epidérmica de
se deixar sentir e ser, troca de pele.
Ao encontro da pele, Cláudia recomeça... Sua busca
é infinita. Sua força, necessária. Seu desejo de abrigo
e acolhimento, improrrogável. Refina o olhar. Busca,
talvez de maneira mais objetiva, imprimir outros olhares.
Busca a objetiva da máquina fotográfica (sua outra
paixão).
Mas, os caminhos do jardim sabem conduzir o buscador
e a menina-mestre se vê, epifânicamente, diante de
seu próprio passado. Quantas vezes não empreendemos
viagens para fora para, de verdade, nos centrarmos?
Sua viagem encontra numa fotografia antiga, de álbum
de família, sua vó à porta de casa com um vestido
de crochet... ousadia sensual de um espírito indomável:
anima mundi.
Na busca dos pontos, do crochet à mourisca, dos panos
e trapos, retalhos que vão recompondo a história e
a própria pele; Cláudia, num impulso criador vai para
a câmara escura e revela e se revela. Compõe.
De seu corpo, partes são expostas no filme fotográfico:
pernas, pés, mãos, perfil... E recheia: crochet.
Mais do que uma técnica aplicada é, novamente, a sua
própria muda de pele. Continua serpente. Seu padrão
epidérmico passa a ser os pontos do crochet. De repente,
percebemos, numa lumina profundis, num olhar em profundidade
que ela, além de trocar de pele, deixou a pele. Está
alí de alma nua, exposta, passado e presente, nos
legando para o futuro a ousadia de perceber a necessidade
da muda. As fotografias nos ficam como as mudas da
serpente que ficam pelo caminho, presas aos galhos,
pedras, troncos do caminho... vão esbranquiçando...
testemunho do silêncio ao qual a voz retorna. Testemunho
do branco ao qual o colorido retorna. Equilíbrio.
Fim e começo de ciclo na roda urobórica de nossa existência.
A revelação das fotografias não é senão outro correlato
do papel que se descola da matriz de madeira, pele
que se des-matriza, matriciando as impressões que
se seguem.
Ver as xilogravuras-fotografias ou as fotografias-xilogravuras
de Cláudia Sperb é mergulhar na serpenteante troca
de pele. Não é à toa que sua flores são escamas coloridas
a compor um jardim que convida à meditação lenta do
cultivo das amizades...
Desde Novo Hamburgo ou Morro Reuter no céu límpido
desta terra gaúcha, no Vale do Ser, vale a pena ser.