Nasci
frente ao mar
Entre vaga e vaga, meu tempo foi marcado
Entre areia e água, minha inconstância
No fluxo repetitivo, eterno mesmo e, contudo,
diferente, infinito...
Por isso, talvez, o mar esteja em meu nome e alma
- o que vem a dar no mesmo –
Se lembro a lição caiçara-guarani
Na busca constante de nosso poty
Alma-palavra a florir
Na árvore quéchua mallkhy
Na guarani yvyra, árvore
de nossos destinos...
Nasci
à meia-noite, sob estrelas teimosas
Como flores num travesseiro de noite chuvosa
Ar úmido de lua morena cheirosa
Atravessando a pele, umedecendo a alma
Encharcando a lembrança dolorosa
Que esquece o pranto e aperta contra o peito
A pequena criatura que chega
Vencendo a jornada primeira,
Do mar-útero-placenta para a beira-mar
Margem de braços que nos acalenta
Um
rumor de soçobrar das ondas
Mesclado com fios de silêncio
Uma promessa de manhã na barra da noite
Rasgando o ventre do céu para os braços da aurora
e agora, numa canção de mesmas notas,
num movimento de ritmo igual,
num misto de prazer e dor,
de beijo e açoite, de amor e sal
a maresia me enche as narinas
e as velas partem como chamas pequeninas
duplo de estrelas, entre céu e mar
Gestação...
Nove luas vós
Voz me concedestes
Na lida, no refletir, na forja, no jardim
No tear
Cada sorriso, cada lágrima, cada indignação
Cada expectativa, cada hesitação
Cada arriscar de criação
Medo e gozo...
experimentação...
Mescla de luz e flor
Peregrinando auroras
Sapateando flamencos
Serpenteando ventres
Xilogravurando mentes
Contareando estórias velhas
Rejuvenescendo conversas
Compartilhando mesa e alimento
Celebrando vinhos de amizade
Cirandeando irmandades
Solfejando versos e luas
Golpeando couros e pulsares
Berimbauzeando prazeres
Cabocleando verdades
Estopim das artes em fermentação
Me vejo agora como nasci
Nasci frente ao mar
Mares de minha vida !
“Vou navegar, meu bem querer...”
É parto.
e parto... partimos.
Mil partes, de cada parte, em toda parte
E rasgamos o ventre da iniciação
Vós partis !
Meus e minhas, agora, iguais...
Fazei o mesmo!... como aprendiz e ensinais
Minhas mestras e mestres de arriscar
Riscar o destino no primeiro traço
Titubear todo o percurso no primeiro passo
Singrar sangrando a primeira quilha
E
ser este mar que tanto amo
- Tanto mar... -
À toda pessoa que vos pedir,
No silêncio do olhar,
Sê prova viva
Da possibilidade
Deste mar!....
Sob
os pingos de uma
lua chuvosa de março de 2009
Às turmas formandas de pedagogia da Feusp
foto: marcos ferreira, 2005 - alfama, lisboa.
"Canção
Lisboeta"
marcos
ferreira santos
Que
salgada liquefação é esta que vem do Mar?
Com a maresia, acompanha a brisa, e me invade os olhos
Vertigem de uma turbação aquosa que a pálpebra irrita
Avermelha a memória faminta de vida
Eriça os pelos da pele com um beijo que suspira
E segreda caminhos e enseadas de becos na vila... Que
escorrente descuido se precipitou ao Mar?
Volta ao seu elemento com a destinação das quilhas
Ao mesmo tempo, sangra na proa das barcas
E atrás se mescla, se confunde, se dilui na ria
Desliza nos telhados e umedece as roupas tendidas
Cai como garoa, gota-alma espargida, água fina
Que
deslize úmido é esse que sacraliza o interno Mar?
Povoa de palavras indizíveis a hesitante poesia
Recheia de ritmos eternos a crepuscular melodia
Abre o peito palpitante com mãos de delícia
E me abraça a consciência com morna carícia...
Alma que extravasa o corpo em dádiva
Eis um milagre de lágrima.
foto:
edward zinvigila, 2006
oceano
marcos
ferreira santos
oh
grande rio do mundo
oceano que me ensinou profundo
os misterios da balsa
na valsa ondulante das vagas
a concretude liquida da vida
a quietude fluida da alma
e a calma de tuas mortalhas
cheia
de perfumes
azuis e verdes brilhos
sais e espumas claras
lacrimosos marulhos
deixa
teus olhos fundos,
horizonte umido
que me enche as narinas
e a memoria marina,
me guardar na retina
retinto abissal
no
santo abraço
sargaço da lida
e segredo thalassal