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NÚCLEO DA PALAVRA DO LAB_ARTE

débora negreiros mello freire
contato: debora.freire@usp.br


Núcleo da Palavra: espaço-tempo para ler, ouvir, refletir, dizer e escrever com deleite.

Apresentação

O objetivo do núcleo da Palavra neste semestre é buscar entrar em contato com diferentes formas de literatura contemporânea que retratem a vida cotidiana de moradores de cidades brasileiras – especialmente São Paulo.
A prosa é um terreno amplo e rico para ser explorado, mas costuma haver uma idéia comum do que é considerado arte – normalmente é aquela feita por homens brancos, de alto poder aquisitivo, que priorizam suas histórias e seu modo de ver o mundo.
Há também a periferia da escrita, tudo aquilo que é produzido apesar da dificuldade de acesso à palavra, e que visa retratar uma realidade que normalmente é ignorada. O objetivo do núcleo da Palavra neste semestre é olhar para o que raramente é visto, que nos mostra um mundo pouco reconhecido e busca trazer novos significados, além de inovar na forma de narrar.
Buscaremos ler textos brasileiros de diversos estilos (contos, crônicas, poemas, narrativas, descrições, memórias, ficção) que falem sobre as margens e o aspecto mais cotidiano da vida na cidade.

Os livros selecionados até o momento (que estão mais do que sujeitos a alterações, é claro) são os seguintes:

- Clarice Lispector – A hora da estrela
- Luis Fernando Veríssimo – A mesa voadora
- Rubem Fonseca e Zeca Fonseca – A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro
- Ignácio de Loyola Brandão – Zero
- Ferréz – Capão Pecado
- MV Bill e Celso Athayde – Falcão – Meninos do Tráfico
- Ana Carolina Leonardo de Freitas – Inter Louco São
- Jeosa Fá – Era uma vez no meu bairro – Zona Norte
- Ricardo Soares – Cine Vertigem
- Oswald de Andrade – Obras Completas
- Daniel Piza – Noites Urbanas

Além da leitura e discussão dos textos selecionados, buscaremos fazer oficinas e encontros especiais de produção de texto pelos alunos participantes do núcleo. Todos serão incentivados a produzir e organizar suas palavras de forma a contar suas próprias vivências urbanas, pessoais, conhecidas, de modo a compreender que há arte no olhar de quem vê, e não só no que a sociedade nos pede para ver.

TEMAS E PRODUÇÕES DESENVOLVIDAS NOS ENCONTROS ANTERIORES

O que seria?
(Lúcio Monteiro - 2º. ano Pedagogia/FEUSP)

Se mulher não existisse?
E se seu brilho não estivesse no mundo?
Sendo ela a mãe,
Nada seria fecundo.
E se homem não existisse,
Com suas forças vitais?
Sendo ele o pai,
Nada seria a mais.
O que do mundo seria
Sem essa combinação:
Brilho e força em união
Modelados pela paixão.
Nessa combinação,
Do brilho do feminino
Com a força do masculino,
Por vezes, a força suplanta o brilho
Ou o brilho cega a força
Mas, porém,
Nas modelagens do amor,
Não só se ama porque,
Ama-se, também, apesar de.


Homem não chora
Débora Negreiros - 3º. Ano Pedagogia FEUSP

Não gosto de homem que chora,
Que é mais sensível que eu.

Não quero homem que chora.
Na barra da minha saia já bastam meus pés.

Não tenho paciência pra homem que chora.
De irracionalidades, já bastam as minhas...

Não aguento homem que chora,
Porque ele me obriga a enxergá-lo...
A ouvi-lo...
A entendê-lo...
A amá-lo...


Olhos de dois andares
Débora Negreiros - 3º. Ano Pedagogia FEUSP

“Olhos de dois andares”, ele diz. Ela não diz nada.
Porque algumas coisas não podem ser ditas. “Gosto do seu cabelo, e você sem camisa naquela primeira noite sentado na cama, foi para mim como uma cena de algum filme que retratasse o Brasil da década de 70 e eu gostei de fazer parte disso.” Não é coisa que se diga.

Como é possível que, sem pronunciar palavras, possa haver troca? Mas é.
A cena de filme retratando o Brasil da década de 70 foi o começo, mas outras imagens vêm depois. Mais do que isso, outras sensações. Como um piano, mas não agitado, não de jazz. Um piano mais azul, mais calmo, de dedos que se demoram levemente sobre as teclas e explicam um quadro que estava lá, faz tempo, e nunca ninguém havia reparado.“Você para mim é como um piano calmo tocado por dedos que se alastram sobre as teclas e me fazem enxergar um quadro no qual eu nunca havia reparado?” Isso também não é coisa que se diga ao outro.

As sensações permanecem, transformam-se, sempre existem, sempre são sentidas.
Talvez seja isso. Ela sente, e por enquanto é isso, é sentir.

 

OBSERVEI UM DIA UM CACHORRO TENDO UMA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL
Ele estava deitado ao sol, daquele jeito que fica parecendo um tapete, sabe?
Sua respiração se acalmou e vi quando todo o seu ser foi tomado por uma paz divina. Quando levantou estava dócil, até amoroso, sorria.Via beleza a cada passo que dava na folha seca enxergava o ciclo de vida e a maravilhosa sabedoria por traz dele, e logo via a minhoca que fazendo parte do ciclo comia a folha. Olhou-me como nunca antes, olhos cheios de gratidão, entendia-me cada intenção, boa e má, sem distinção.
Ao longe, apareceu um gato, que vira e mexe saltava a cerca, o cão lhe fitou com afeição?!?
O enxergou como a mim, por inteiro, parte de algo maior e tão belo. Sorriu-lhe e até chegou a latir algo que me pareceu palavras de gratidão. O gato, ao ouvi-las, parou repentinamente e ali ficou com olhos desconfiados. O cão feliz, de verdade, não de bobo, prostrou-se ao chão uma vez mais.
O gato vendo que era realmente assim, que estava tudo calmo e que não sentia ameaça alguma vindo do animal que ali deitava, avançou calmamente na comida do cachorro.
Foi coisa de um segundo, tudo mudou; acho que até as nuvens carregadas acharam seu caminho e pararam em cima de minha casa.
O cachorro saltou e deu-lhe uma mordida feroz, neste ponto intervim gritando, o gato ferido voltou a saltar a cerca e acho que este, especificamente, nunca mais voltou.
O cachorro agitado andava de um lado a outro, frustrado, não por não ter pegado o gato, mas por ter perdido aquela paz divina, na qual achou que passaria o resto de seus dias...
(Iara Haasz - último semestre de Pedagogia – FEUSP)

*****
AMOR
Quando há amor
As palavras já não dizem,
Os olhares definem tudo.

Não se pergunta se ele é merecido,
Pois o sentimento é generoso,
E não pressupõe condições

União de coisas avessas,
Ele me permite ser
Eu mesma e o meu oposto

A santidade e o pecado,
A solidão e a alegria,
A certeza em tempos de dúvida

Amor,
Em suas indefinidas formas e sentidos,
É um encontro
[nem sempre certo]
Entre duas almas
Revelando a expressão
Do caráter ilógico da vida...
(Núbia Marques Fujii – último semestre de Pedagogia - FEUSP)
*****

A MONTANHA AZUL
Há muito e muito tempo, um homem estava sem saber o que fazer. O único prazer que tinha era ouvir música e, às vezes, ler livros. Ele queria encontrar algo para seguir e acreditava que encontraria fora de si. Viveu a procurar, mas como nada encontrou, começou a desanimar. E o desânimo foi tão grande que refletiu em seu corpo, fazendo-o adoecer. Já não tinha sonhos – se os tinha, não acreditava neles. Queria encontrar o que lhe fosse realmente importante. Sabia que a cultura lhe dava um caminho na selva da existência. Mas essa posição passiva, de mero consumidor de cultura, não lhe bastava, pois queria fazer algo. E fazer era a grande verdade, o buscado.
Mas o que fazer?
Um dia ele resolveu sair do vilarejo onde morava em busca da experiência com a verdade. A primeira atitude a ser tomada, pensava, era não se negar e, ao mesmo tempo, se esquecer. Esquecer o lado da vida que teima em querer algo apenas para si e que nunca se satisfaz. Ao agir desta forma, sentiu-se em liberdade e uma paz interior o fortaleceu. Assim, pois, já não era ele próprio: aquele eu que deseja algo apenas para si, fora sobrepujado por uma força maior, que o tornava, enfim, ele mesmo. Pode desviar-se de caminhos tortuosos e seguir no caminho que era seu. Admirava e respeitava as pessoas que haviam seguido rumos grandiosos; contudo, não lhe interessavam os passos alheios, pois sabia que o caminho era sempre individual.
E seguiu pela estrada que julgou a sua, abandonando tudo o que possuía. Foi criticado por muitos que não o compreenderam, mas sentia que tinha que ser dessa maneira. Na estrada encontrou uma mulher e lhe indagou:
– Sabe onde fica o templo da verdade?
Ao que ela respondeu: - Fica onde quiser que esteja.
– Tu respondes de modo esquisito – retrucou o homem aborrecido.
– Não me leve a mal – respondeu humildemente a mulher –, mas é o caminho que conheço.
– Pois saiba que verdade e a justiça sempre estão juntas e não podemos desconhecer que são elas que nos impelem aos atos nobres e belos – asseverou o homem.
– Muito eloqüente você – disse ela, com um sorriso nos lábios e a Verdade nos olhos. – Já aplicou essas palavras à vida?
O homem silenciou. Após alguns minutos, calado, observou que a mulher distanciava-se, adentrando um jardim. Ele a seguiu e, já cansado, avistou uma grandiosa montanha azul. Após galgar sofrivelmente até ao cume, deparou-se com um homem que meditava. Aproximou-se lentamente e viu que este estava sendo vigiado por dois outros homens, um pouco afastados e temerosos. O homem que meditava parecia distante e absorto, mas ao mesmo tempo alerta, e nada temia. Em seguida, o rosto do homem se fez em fogo e os homens que o vigiavam amedrontaram-se ainda mais, mas o caminhante não se moveu e continuou a observá-lo fixamente.
Então, pensou de si para si: “- A vida é o caminho na Verdade”. Enquanto o rosto do homem que meditava ainda se fazia em chamas, ele se afastou sem que ninguém o percebesse e enveredou para o vilarejo. Lá, no seu canto, servia todos os seres que necessitam de ajuda, inclusive, os que peregrinam em busca do caminho da Verdade. A casa em que ele morava jamais fora encontrada com o portão fechado, e era freqüente avistá-lo no jardim ao crepúsculo.
(Fernando Dantas Vidal – aluno do último semestre de Pedagogia – FEUSP)

*****
UMA NOVA ANTIGA HISTÓRIA NOVA
Era uma vez, uma chapeuzinho vermelho
Mas nessa história não havia um coelho,
Nem uma fera que se transformava
Apenas um lobo que amava
Uma gata que botas usava.

Chapeuzinho vivia com sete anões
Em um castelo encantado,
Lá não havia dragões
Somente um patinho rejeitado.

Eles quase felizes para sempre viveram
Até que um dia um menino mentiroso surgiu,
Dizendo que atrás do sapatinho de cristal que os três porquinhos esqueceram
A bruxa malvada de um país das maravilhas partiu.

Chegando no castelo, o menino mentiroso, a bruxa avistou,
Foi imediatamente contar a todos que ele se enganou
Pois, na verdade, ela havia recebido um chamado,
Para ir ajudar a vovozinha que estava preza em um armário no reino ao lado.

Mas, a bruxa realmente irritada ficou,
E um maldoso feitiço lançou:
Aquele reino, erguido ao céu ficaria
E só poderiam salvá-los, João e Maria.

Que jogando ao chão, pedaços de pão
Com a imensa árvore que nascera, subiram ao céu e encontraram,
Os feiticeiros Pumba e Timão
Que com a maldição acabaram.

O menino diante do problema que fez
De coração se arrependeu,
“Desculpas”, a chapeuzinho pediu com sensatez
E seu nariz nunca mais cresceu.

Os dois, para a alegria do reino, enamorados ficaram,
E depois de um mês se casaram.
Chapeuzinho entrou na igreja com um belo véu
Feito pela vizinha costureira, Rapunzel

A festa estava super animada
Havia várias maçãs, mas nenhuma envenenada.
Serviram também vários pratos com mingau,
Que uma menina de cachinhos dourados, de tanto comer, passou mal.

E assim, todos no reino tentariam felizes viver,
Até um outro alguém aparecer
E fazer de novo a bruxa se zangar
Mas fazendo vir heróis para todos salvar.

Afinal, esta foi uma história inventada,
Onde misturando vários contos de fada
Deu origem a este poema que você leu
E que só vai ter fim quando alguém exclamar:
- A Imaginação morreu!

E que para isso não venha a acontecer,
Quem vai continuar a escrever?
Quem vai continuar a inventar?
Rápido, pois a mágica e a fantasia não podem parar!

(Carolina Coronato Bortoletto: 2o. sem. de Pedagogia;
Lisiane Fonseca Diogo: 2o. sem. Pedagogia e
Raissa Chappaz: 4o. sem. Pedagogia – Todas FEUSP)

*****
PALAVRA
Este espaço de grande apresentação
Já foi em outros momentos de muita conversação
Alguns chegando outros saindo sem nenhuma confusão
Discutíamos Antônio Cândido
Pra falar com exatidão
Com seus estudos sobre a literatura
Trouxe grande contribuição

O autor traz a importância da literatura
Pra nossa civilização
Como uma arte sutil ela humaniza
Gerando reflexão
Importante dizer que sem ela
Estamos entregues à mutilação
É em ti literatura
Que está a aceitação
Do outro e de nós mesmos com bastante afeição
Tal surpresa me invadiu
Diante da revelação
Muitos contos apreciados
Da violência e do encanto lançaram mão
Do original pudemos ler e conversar
Sentimos forte empolgação
Com “Bettelheim” e seus escritos
A interferência da ficção
Os contos por ele mencionados
Obras de arte que causam conforto e apreciação
Tratam questões cruciais
Gerando na criança identificação
Os “Dois Irmãos” aventureiros
Separados pelo destino
No final deram a mão
Histórias da natureza, contos, cordéis e mitos
À nós professores é dada uma missão
Levar às salas de aula
Intensa propagação.
(Rozeneide Santos de Almeida – último semestre Pedagogia – FEUSP)

Simplesmente poesia
A poesia é um encontro...
Em meio a incongruências
E exatidões ilógicas
Que insistem em se mostrar.
Encontro do poeta consigo mesmo,
Com a vida... com o outro...
Encontro com a palavra,
Elucidada por versos e rimas,
Retrato da sonoridade da alma.
Ao mesmo tempo em que toca,
Permite-se ser tocada,
Não a mãos duras e pesadas,
Mas por uma suavidade que afaga.
E como que em uma confluência de sentidos,
Provoca um ensimesmamento...
Expressão de qualquer coisa
Reveladora de um sentimento do mundo...
(Núbia Marques Fujii – 2008)

*****
Em tom de baião
Então me diz qual é a pressa meu amor
Que a vida é longa pra cantar uma canção
Que a vida é longa para abrir o coração
Que a vida é longa para ver o céu brilhar

A vida é curta pra morrer atropelado
Mas que te custa atravessar do outro lado?
A vida é longa pra um luar ensolarado
A vida é longa pra ficar bem ao teu lado

A vida é curta para ouvir reclamação
O som do saco, do sapato, da cidade,
Lá do outro lado tem um mundo de verdade
Mas a verdade por acaso é salvação?

A vida é longa pra obter conhecimento
A vida é longa para um pouco de alento
Para comida, pra batuque, pra silêncio
A vida é curta pra viver na solidão

A vida é longa pra ficar um pouco só
Ficar consigo, ser amigo de si mesmo
A vida é longa pra um abraço apertado
A vida é longa pra um poeta bem cantado

A vida é curta pra chorar desconsolado
Ou ter saudade de quem nunca vai voltar
A vida é curta pra buscar um grande amor
(mas eu espero algum momento encontrar)

A vida é curta para ver televisão
A vida é longa para o mundo explorar
A vida é longa para ler quem escreveu
A vida é longa pra sentir ouvir e ver

Então me diz qual é a pressa meu amor
Que a vida é longa pra cantar uma canção
Que a vida é longa para abrir o coração
Que a vida é longa para ver o céu brilhar

*****
Aqui deixo minha última flor,
de pétalas vermelhas e caule verde, como suas folhas.
Seu espírito não existe mais, porque nunca existiu.
Sempre pensou existir, mas descobriu a pouco ser mentira.
Seu corpo padece a perda de algo que nunca foi.
Suspira lentamente.
Aqui deixo minha última flor e finjo partir.
Finjo.
Nunca partirei de verdade, não sei como fazê-lo.
Mas a simples idéia de partir deixa meu espírito, que não existe, mais leve.
Vou deixar essa vida de espírito e vou viver minha vida de ser.
Serei poeta do campo e farei da poesia meu meio de ser sozinha, como o mestre.
Largarei, renunciarei.
Morrerei.
Viverei nos meus sonhos.
Nunca mais sairei de lá.
Se sair, somente e tão somente observarei minha última flor.
E verdarei e vermelharei para parecer ela, e suspirarei.
E meu corpo padecerá, e se algum dia morrer, deixarei de ser, portanto, de existir.
Minha alma não vai a lugar nenhum porque ela não existe.
Minha memória se apagará.
A memória de mim também.
Nada sobrará, a não ser uma pétala vermelha, já seca.
Meu corpo vai morrer. Vai sumir. Nunca vai ter existido.
Sobrará, somente, uma pétala vermelha, já seca.
(Vivian de Souza – 2008)

*****
A vida poderia ser feliz
Mas ela é triste
A vida poderia ser sorrisos
Mas ela é choro
A vida poderia ser leve
Mas ela é pesada
A vida poderia ser tudo isso
Mas não é, pois não tenho seu amor
(Leandro Comarin – 2008)

*****
Aquele homem. Ah! Aquele homem
Apenas chora suas lágrimas de sangue
Apenas vive o ódio que o consome
Não viver para o outro
Mas viver para si
Apenas para si
Mas por quê?
Aquela mulher. Ah! Aquela mulher
Ela é tão bela
Ela é tão rica
Todos a amam
Porém vive triste
Acorda triste
E sonha triste
Todos a amam
Porém poucos a amam de verdade
E quem ela ama, não existe.
Ela sente saudades
Do que nunca existiu
Do que nunca existirá
(Leandro Comarin – 2008)

*****
Às vezes eu penso que você deveria ser só.
Assim como eu.
Às vezes eu penso que não.
Às vezes penso que te amo.
Às vezes penso que não.
Às vezes penso que o sol do amor nasceu para nós.
Mas, quando abro os olhos,
Só vejo escuridão
(Leandro Comarin – 2008)

*****
O comprador de sonhos
Era um índio mexicano
Seu nome era Agapito
Camponês sem terra
Peão pobre e bonito.
Pastor de ovelhas sem ovelhas.
Que trabalho esquisito!

No começo do labor
O peão é homem pobre
No final de seu lavor
O peão só tá mais pobre!
Seu dono o abandona
Deixando-o em dívida com cobre
(Esboço de Cordel, baseado no conto... Por Louisa, Maiara e Sílvia)

*****
Gingadoce du minino

Das mais rara frô
dirruba a minha pose
ô minino gingadô
Numa rasterona ornamentada
me surrupia o salto de assalto
e quando estapeia batucantadas...
...é cafuné na minha alma...

E nesse sorrisinho amaciante
mi abrigo quentinha
no vale da sua covinha
...mas quando me põe esse zoinho arisco
me ponho na guarda vacilante
me aplicou um bote no confisco
na arte da postura guerreira
... saliente poder de fogo ...

Mi inquilinei di graça, minino
Nes’seu abraçãozão amarrotado
abarrotado de sentido
.......de feitiçadas...
mi remendando e mi abrindo...
... mi remendando e mi abrindo...
Impregnô meu dentro todinho
i mi dexô aqui... silenciada...
di olhos, braços e peito aberto
.....eu c’o eu....
sem ocê, lindo minino gingadô
quié o meu museu inspiradô.
(Elis Regina Feitosa do Vale)

*****
Botânica eloqüente
Plantei nuvem, deu palavra
Pesada, em carne viva
Sem semente, incoerente
Com gosto de boca ardida
e rubra, do remetente
Brotou até no escuro
Porque reguei de pensamento
Do sumo mais puro
agüei tanto até sangrar
(que deu céu, que deu mar)
Que deu verso
(Patrícia Carneiro Pastorello)

*****
Tenho sido
Burocrática
Critica
Acadêmica
Política
Enfática
Filosófica
Apática
Neurótica
Poética
Simpática
Categórica
Fantástica
Fantasmagórica
Romântica
Teórica
E Proparoxítona.
(Patrícia Carneiro Pastorello

Núcleo da Palavra. Impressões pessoais sobre a experiência de leituras de Mitos, Contos Tradicionais e Contos de Fada.

No trato com as coisas às quais fui apresentada nesse mundão, (d)escrevo aqui um bocadinho da minha ainda tensa e misteriosa relação com a palavra escrita, experimentada no Núcleo da Palavra do Lab_Arte. Delato que escrevo também pensando nos olhinhos potentes de Marcos, homem-fonte, e de Edleuza, valorosa parceira de uma vivência que neste instante me alimenta para a movimentação da palavra escrita. Assim, afirmando a minha palavra escrita enquanto um ato criador e mobilizador de forças vitais, é que comunico, em poucas palavras, as minhas impressões pessoais de leitura a partir desta vivência.
Escolho começar com a sensação de novidade, na curiosidade sobre um novo trato com os chamados textos, que estava por vir em atividades espacialmente abrigadas por uma instituição, cujas relações de poder são legitimadas e estabelecidas por uma delimitada linha de produção de ler e escrever. Desabafo que a palavra escrita na escola vinha me maltratando ao me coagir às exigências do distanciamento científico, à leitura instrumentalizante, à sub-representação oferecida ao meu povo e, quando não, à tristeza dos textos de estudos sobre a desigualdade. Engole o choro e racionaliza!
Ademais, para quem a leitura tradicionalmente veio acompanhada dos três “S” – Sentada, Sozinha e Silêncio – o ato de ler em conjunto, de ouvir a leitura acompanhando ou não no papel e de ler em voz alta, me suscitou a sensação de primeiro beijo num início de namoro proibido. Transitar pelas variadas formas de vivenciar os textos foi o que me senti possibilitada e instigada a fazer. A liberdade de me emocionar, de sentir medo, de ouvir texturas e cheiros, de oralizar paisagens, de visualizar barulhos e de imaginar continuidades, me provou o tamanho indescritível do poder de vida que a palavra escrita guarda ali, no seu silêncio impresso de tinta sobre o papel a espera de dedos, olhos e guelas.
Sem contar a qualidade dos textos, textualidades e intertextualidades que nos foi oferecida nessa experiência. A “deseurocentrização” de autores e temas, nessa escola de fazer escola, sempre traz um caldeirão de esperança à minha faminta razão sensível. O alimento ancestral para meus filhos, e filhos de minha aldeia, engorda quando converso com outras, que não a ocidental, formas de conceber e explicar o mundão. Textos que, de forma prazerosa, nos incita imagens e imagens que nos incita textos, foram músicas para meus olhos e aromas para os meus ouvidos. Mesmo a leitura institucionalizada dos três “S” me parece agora menos dolorida.
A despeito das dificuldades encontradas, afirmo que são somente as advindas da minha trajetória conflituosa com o ato de ler, e o tempo despendido para o devido deleite. Nada que o tempo exercitado não resolva.”
(Texto, em forma de depoimento, produzido por Elis Regina Feitosa do Vale, aluna da Pedagogia – FE-USP)

 

Núcleos de vivência e experimentação do lab_arte:

 


 
 
 

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ficha de estágio pedagogia

ficha de estágio licenciatura

carta de apresentação prof. marcos ferreira

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