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prof. dr. marcos ferreira santos
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marcos ferreira, no litoral de santos, terra natal, 1983 memórias líquidas...

entre o início e o momento atual de minha vida, não vejo nenhum desenvolvimento regular de meu pensamento com etapas determinadas, com enriquecimento sucessivo da evolução de tal pensamento. Melhor vejo uma série de iluminações, uma série de crises, de intuições definitivas, uma série de vivências de velhas intuições de um novo mundo.  Na realidade, nunca recusei nada do que me ofereceu o passado nem renego-o, se bem que em determinadas ocasiões o aparto do campo de minha consciência ou o considero em um mundo novo para mim. Por ele, o que de valor se encerra no passado posso vivê-lo também agora, como um eterno presente.”

(Nikolay Berdyaev, 1948)


sobre mortalhas e sorrisos...

na frente: joão francisco, dona maria (esposa), rodolfo (neto), sandra (filha), guilherme e felipe (netos)
no fundo: rafael e willer (netos), sonia e solange (filhas), marcos (genro), sidnei (filho) - acervo da família, 2006.

pessoas queridas:

depois de quatro meses de luta, muita dor e persistência o Sr. João Francisco descansou do sofrimento...
o beijo da morte veio numa brisa vespertina, hoje (20 de julho) às 16 hs... meu sogro se foi...
parou de sofrer.
pai da solange e da sandra...
o vesti e preparei seu corpo para a última viagem...
talvez seja complexo de caronte... resquício ainda da vida de bombeiro
ele morreu serenamente sob a vigília da solange... incansável acarinhando a face do pai...
fiz questão de deixar um lenço na lapela... aprumado... vistoso...
carpinteiro que foi sei que faz questão de alinho...
no linho de sua mortalha luz um quase sorriso...
nos deixa uma lição de apego à vida que só o último suspiro deixou escapar...
era para descansar

ah... seu joão... gostava de viola de verdade e canto dos antigos...
com cheiro de terra molhada
o sepultamento foi no dia seguinte, 21 de julho, no cemitério do jaraguá
dia de seu aniversário, completou 69 anos

gostaríamos de agradecer àqueles que estiveram presentes durante todo esse tempo
aos que só puderam vir na despedida
aos que não puderam vir mas estavam presentes
no carinho, no alento, na lembrança...


saudade úmida da pampa e dos pagos

em março de 2007, ao fazer uma conferência sobre as mitologias pampeanas no instituto simões neto de pelotas/rs, fui gentilmente recebido por dona antoninha (avó de guilhermina guinle) , em sua estância da gruta... entre a peonada, no galpão... me senti em casa...

marcos ferreira tocando bombo legüero com o grupo "os bagualitos" no galpão da estância da gruta, pelotas/rs

peonada e prendas mateando no galpão da estância da gruta, pelotas/rs

marcos ferreira entre as prendas pilchadas, galpão da estânica da gruta, pelotas/rs. Observe o desconsolo do guasca ao fundo...


primeiras paragens...

No esteio das reflexões e atitudes filosóficas e antropológicas, me fiz viajante de paragens distantes, pois elas aclaram o sentido de minha querência, de meu pago primeiro. Minha aldeia é o mundo e o mundo é minha aldeia. Atahualpa Yupanqui (o folklorista argentino que hoje se encontra no "céu dos bons cavalos" com todos os seus alazões de crinas de fogo, ao lado do louco e adorável astro meteórico Astor Piazzolla) dizia que "somente se é universal quando se canta a própria aldeia".
Destas paragens de matizes coloridos e também cinzentos, pude ver a confluência de caminhos diversos que me levaram a um ponto eqüidistante entre os Alpes e os Andes , no meio do Atlântico... talvez na aquosa Atlântida. No Alfa de tudo, no "A" da posição yogi de lótus indiana. Alpes que serviram de encosta para os meus tão queridos pensadores franceses: Mounier, Merleau-Ponty, Freinet, Gilbert Durand, Bachelard, o exilado russo Berdyaev e um suíço, em especial: Jung. Andes que serviram de encosta para minha própria identidade mestiça, muito embora tenha nascido longe (fisicamente) de lá.
Nasci de frente para o Atlântico (este mar/morte terrificante e fascinante, ao mesmo tempo), num hospital do porto de Santos ("De Todos os Santos"). O cais é sempre este ponto seguro da terra que nos arremessa à incerteza do mar, à sua concretude líqüida. Numa quarta-feira (no meio da semana), à meia-noite (no meio do dia e da noite). No transitar de um dia para o outro, sob o domínio lunar da escuridão luminosamente estrelada por gotas de chuva-constelações, num final de 23 de outubro. Noite chuvosa em que meu pai escorregava numa poça de água a caminho do hospital, destas mesmas que planteiam a calçada e o asfalto com múltiplos lagos que escondem sua profundidade na superfície.
Fruto de uma árvore genealógica mestiça (como todo bom mazombo brasileiro ): meu pai negro vigoroso de São Jorge dos Ilhéus, mestiço de uma pequena grande negra e um pastor batista, filho de índios mongoió e portugueses. Minha mãe, branca apaixonada por dança de salão nos (nem tanto) dourados anos sessenta, cedo órfã do pai também pastor protestante, judeu-alemão, fugido da 2a. Grande Guerra, e da mãe italiana que guardava na memória e na voz (talvez transmitido a mim geneticamente) os cantos anarquistas do Sul da Itália... "Quel mazzolin di fiori... en la montagna, che gente qui no si bagna..."
As imagens pululam hoje em minha memória assim como os insetos que se movimentam no final de tarde na despedida do sol e recepção do manto sereno da noite: crepusculário. A curiosidade pululava aos nove anos de idade em que me aventurei no mercado de trabalho (meio a contragosto de meus pais), embebido com as primeiras leituras de Sócrates, as fascinantes maravilhas do conhecimento humano ... Jasão havia penetrado em minha vida mais do que imaginava. Argonauta atrás do velocino dourado - Medéias mediando a busca...
O cinema igualmente me atraía, justamente pela sua imaginação (imagem-em-ação), me liberando para ler (experienciar) outros mitos que não haviam sido adaptados para o grande kino-olho da mágica sala escura. Utilizo a forma ortográfica arcaica de mytho, a partir do grego mythós ( ): "aquilo que se relata", para sinalizar a diferença da concepção aqui adotada, como narrativa dinâmica de imagens e símbolos que orientam a ação na articulação do passado (arché) e do presente em direção ao futuro (télos), isto é, num pro-jectum existencial a ser vivido . O sentido mais difundido de "mito" como algo ilusório, fantasioso, falacioso, resultado de uma "má" consciência das coisas e das "leis" científicas, aqui é descartado. Daí a importância também das metáforas, como meta-phoros, um além-sentido que impregna a imagem e explode a sua semântica, justamente, pela "elisão do verbo ser" .
O mitólogo Joseph Campbell dizia que o mito não apenas nos dá um sentido para a vida, mas é a própria experiência de viver. Creio que minha relação com os mitos têm sido justamente esta: a de experienciar a vida através do sentido que construo e que se revela a mim pleno mediante seu conteúdo mítico. Sou a própria narrativa em processo de meu mito pessoal.
Desde os meus treze anos de idade os Vedas me abriram a beleza e a onipresença da luz e do Prana, mesmo no seio da escuridão. Krshna bailava no meio da tempestade entre as gopis (pastoras) ao som da cítara divina de Ravi Shankar - portanto, mais tântrico e shivaya que vayshnava , enquanto eu lia as parábolas amargas e tonificantes do cedro libanês chamado Gibran Khalil Gibran (de quem dei nome ao meu primogênito nascido em 1985). Lao-Tsé calava em meu peito a ressonância do Tao Te King através do canto da concubina na Ópera de Pequim, enquanto eu mesmo entoava com minha quena um yaraví quechua lembrando os antepassados mumificados nas vasilhas de barro e pedindo a Inti (Deus-Sol) e a Pachamama (Mãe Terra) que o Tahuantinsuyo (Reino das Quatro Direções) não se perdesse sob a cruz-feito-espada católica da invasão: primeiro espanhola, depois inglesa, depois norteamericana, depois militar, depois traficante...
Contaminado pela ahimsa (não-violência) e pela satyagraha (apêgo à verdade) do Mahatma Mohandas Karamchand Gandhi; ao som da "Noite Transfigurada" de Schöenberg, da "Sagração da Primavera" de Stravinsky e, principalmente, pelos cantos medievais da Europa ocidental mourisca, fui ter com os quatro elementos alquímicos: Água, Ar, Terra e Fogo (na lição alquímica e bachelardiana). Mas, não apenas, formalmente, teoricamente, como exercício acadêmico ou apenas gnóstico. Não. Fui ser bombeiro (Drumond diria: "vai ser gauche na vida !"), deixando a tranqüila mesa de gerência de uma gráfica e o seu "desexpediente" .
Era preciso lançar-me mais uma vez às forças da natureza, não apenas pelo seu fascínio indomável, mas pelo Outro. Por essa paixão pelo Outro. Vislumbrar o "Ser Selvagem" de Merleau-Ponty em toda sua corporeidade. Foram sete anos (1987-1994) de aprendizagem (cabalístico não ?) da vida e da morte através da água (salvamento aquático), da terra (salvamento terrestre), do ar (salvamento em altura) e do fogo (incêndios).
O fato de poder servir àquelas pessoas sem que elas ficassem devendo qualquer tipo de agradecimento ou recompensa e mesmo a despeito de ter vínculos afetivos ou não, era algo que me realizava como pessoa. Antropologicamente.
 

(trecho do texto "Forjas da Temperança: caminhos de um Memorial" - memorial apresentado como exigência parcial para inscrição no concurso para obtenção do título de Livre Docente, junto ao Departamento de Administração Escolar e Economia da Educação (EDA) na área de conhecimento Cultura e Educação: Teoria da Complexidade e Cultura Escolar, e Imaginário e Processos Simbólicos, 2004)

 
                   
                    
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