entre
o início e o momento atual de minha vida, não vejo
nenhum desenvolvimento regular de
meu pensamento com etapas determinadas, com enriquecimento
sucessivo da
evolução de tal pensamento. Melhor vejo uma série de
iluminações, uma
série de crises, de intuições definitivas, uma série
de vivências de velhas
intuições de um novo mundo. Na
realidade, nunca recusei nada do que me ofereceu o passado
nem renego-o, se
bem que em determinadas ocasiões o aparto do
campo de minha consciência ou o considero em um mundo novo
para mim. Por
ele, o que de valor se encerra no passado posso vivê-lo
também agora, como
um eterno presente.”
(Nikolay
Berdyaev, 1948)
sobre
mortalhas e sorrisos...
na frente:
joão francisco, dona maria
(esposa),
rodolfo (neto),
sandra (filha),
guilherme e felipe (netos) no fundo:
rafael e willer (netos),
sonia e solange (filhas),
marcos (genro),
sidnei (filho)
- acervo da família,
2006.
pessoas
queridas:
depois de quatro meses de luta, muita dor e persistência
o Sr. João Francisco descansou do sofrimento...
o beijo da morte veio numa brisa vespertina, hoje (20 de julho)
às 16 hs... meu sogro se foi...
parou de sofrer.
pai da solange e da sandra...
o vesti e preparei seu corpo para a última viagem... talvez
seja complexo de caronte... resquício ainda da vida
de bombeiro
ele morreu serenamente sob a vigília da solange...
incansável acarinhando a face do pai...
fiz questão de deixar um lenço na lapela...
aprumado... vistoso...
carpinteiro que foi sei que faz questão de alinho... no
linho de sua mortalha luz um quase sorriso...
nos deixa uma lição de apego à vida que
só o último suspiro deixou escapar...
era para descansar
ah... seu joão... gostava de viola de verdade e canto
dos antigos...
com cheiro de terra molhada
o sepultamento foi no dia seguinte, 21 de julho, no cemitério
do jaraguá
dia de seu aniversário, completou 69 anos
gostaríamos
de agradecer àqueles que estiveram presentes durante
todo esse tempo
aos que só puderam vir na despedida
aos que não puderam vir mas estavam presentes
no carinho, no alento, na lembrança...
saudade
úmida da pampa e dos pagos
em
março de 2007, ao fazer uma conferência sobre as mitologias
pampeanas no instituto simões neto de pelotas/rs, fui
gentilmente recebido por dona antoninha (avó de guilhermina
guinle) , em sua estância da gruta... entre a peonada, no
galpão... me senti em casa...
primeiras
paragens...
No esteio das reflexões e atitudes filosóficas
e antropológicas, me fiz viajante de paragens distantes,
pois elas aclaram o sentido de minha querência, de meu
pago primeiro. Minha aldeia é o mundo e o mundo é
minha aldeia. Atahualpa Yupanqui (o folklorista argentino
que hoje se encontra no "céu dos bons cavalos"
com todos os seus alazões de crinas de fogo, ao lado
do louco e adorável astro meteórico Astor Piazzolla)
dizia que "somente se é universal quando se canta
a própria aldeia".
Destas paragens de matizes coloridos e também cinzentos,
pude ver a confluência de caminhos diversos que me levaram
a um ponto eqüidistante entre os Alpes e os Andes , no
meio do Atlântico... talvez na aquosa Atlântida.
No Alfa de tudo, no "A" da posição
yogi de lótus indiana. Alpes que serviram de encosta
para os meus tão queridos pensadores franceses: Mounier,
Merleau-Ponty, Freinet, Gilbert Durand, Bachelard, o exilado
russo Berdyaev e um suíço, em especial: Jung.
Andes que serviram de encosta para minha própria identidade
mestiça, muito embora tenha nascido longe (fisicamente)
de lá.
Nasci de frente para o Atlântico (este mar/morte terrificante
e fascinante, ao mesmo tempo), num hospital do porto de Santos
("De Todos os Santos"). O cais é sempre este
ponto seguro da terra que nos arremessa à incerteza
do mar, à sua concretude líqüida. Numa
quarta-feira (no meio da semana), à meia-noite (no
meio do dia e da noite). No transitar de um dia para o outro,
sob o domínio lunar da escuridão luminosamente
estrelada por gotas de chuva-constelações, num
final de 23 de outubro. Noite chuvosa em que meu pai escorregava
numa poça de água a caminho do hospital, destas
mesmas que planteiam a calçada e o asfalto com múltiplos
lagos que escondem sua profundidade na superfície.
Fruto de uma árvore genealógica mestiça
(como todo bom mazombo brasileiro ): meu pai negro vigoroso
de São Jorge dos Ilhéus, mestiço de uma
pequena grande negra e um pastor batista, filho de índios
mongoió e portugueses. Minha mãe, branca apaixonada
por dança de salão nos (nem tanto) dourados
anos sessenta, cedo órfã do pai também
pastor protestante, judeu-alemão, fugido da 2a. Grande
Guerra, e da mãe italiana que guardava na memória
e na voz (talvez transmitido a mim geneticamente) os cantos
anarquistas do Sul da Itália... "Quel mazzolin
di fiori... en la montagna, che gente qui no si bagna..."
As imagens pululam hoje em minha memória assim como
os insetos que se movimentam no final de tarde na despedida
do sol e recepção do manto sereno da noite:
crepusculário. A curiosidade pululava aos nove anos
de idade em que me aventurei no mercado de trabalho (meio
a contragosto de meus pais), embebido com as primeiras leituras
de Sócrates, as fascinantes maravilhas do conhecimento
humano ... Jasão havia penetrado em minha vida mais
do que imaginava. Argonauta atrás do velocino dourado
- Medéias mediando a busca...
O cinema igualmente me atraía, justamente pela sua
imaginação (imagem-em-ação), me
liberando para ler (experienciar) outros mitos que não
haviam sido adaptados para o grande kino-olho da mágica
sala escura. Utilizo a forma ortográfica arcaica de
mytho, a partir do grego
mythós ( ): "aquilo
que se relata", para sinalizar a diferença da
concepção aqui adotada, como narrativa dinâmica
de imagens e símbolos que orientam a ação
na articulação do passado (arché) e do
presente em direção ao futuro (télos),
isto é, num pro-jectum existencial a ser vivido . O
sentido mais difundido de "mito" como algo ilusório,
fantasioso, falacioso, resultado de uma "má"
consciência das coisas e das "leis" científicas,
aqui é descartado. Daí a importância também
das metáforas, como meta-phoros, um além-sentido
que impregna a imagem e explode a sua semântica, justamente,
pela "elisão do verbo ser" .
O mitólogo Joseph Campbell dizia que o mito não
apenas nos dá um sentido para a vida, mas é
a própria experiência de viver. Creio que minha
relação com os mitos têm sido justamente
esta: a de experienciar a vida através do sentido que
construo e que se revela a mim pleno mediante seu conteúdo
mítico. Sou a própria narrativa em processo
de meu mito pessoal.
Desde os meus treze anos de idade os Vedas me abriram a
beleza e a onipresença da luz e do Prana, mesmo no
seio da escuridão. Krshna bailava no meio da tempestade
entre as gopis (pastoras) ao som da cítara divina de
Ravi Shankar - portanto, mais tântrico e shivaya que
vayshnava , enquanto eu lia as parábolas amargas e
tonificantes do cedro libanês chamado Gibran Khalil
Gibran (de quem dei nome ao meu primogênito nascido
em 1985). Lao-Tsé calava em meu peito a ressonância
do Tao Te King através do canto da concubina na Ópera
de Pequim, enquanto eu mesmo entoava com minha quena um yaraví
quechua lembrando os antepassados mumificados nas vasilhas
de barro e pedindo a Inti (Deus-Sol) e a Pachamama (Mãe
Terra) que o Tahuantinsuyo (Reino das Quatro Direções)
não se perdesse sob a cruz-feito-espada católica
da invasão: primeiro espanhola, depois inglesa, depois
norteamericana, depois militar, depois traficante...
Contaminado pela ahimsa (não-violência) e pela
satyagraha (apêgo à verdade) do Mahatma Mohandas
Karamchand Gandhi; ao som da "Noite Transfigurada"
de Schöenberg, da "Sagração da Primavera"
de Stravinsky e, principalmente, pelos cantos medievais da
Europa ocidental mourisca, fui ter com os quatro elementos
alquímicos: Água, Ar, Terra e Fogo (na lição
alquímica e bachelardiana). Mas, não apenas,
formalmente, teoricamente, como exercício acadêmico
ou apenas gnóstico. Não. Fui ser bombeiro (Drumond
diria: "vai ser gauche na vida !"), deixando a tranqüila
mesa de gerência de uma gráfica e o seu "desexpediente"
.
Era preciso lançar-me mais uma vez às forças
da natureza, não apenas pelo seu fascínio indomável,
mas pelo Outro. Por essa paixão pelo Outro. Vislumbrar
o "Ser Selvagem" de Merleau-Ponty em toda sua corporeidade.
Foram sete anos (1987-1994) de aprendizagem (cabalístico
não ?) da vida e da morte através da água
(salvamento aquático), da terra (salvamento terrestre),
do ar (salvamento em altura) e do fogo (incêndios).
O fato de poder servir àquelas pessoas sem que elas
ficassem devendo qualquer tipo de agradecimento ou recompensa
e mesmo a despeito de ter vínculos afetivos ou não,
era algo que me realizava como pessoa. Antropologicamente.
(trecho do texto "Forjas da
Temperança: caminhos de um Memorial" - memorial
apresentado como exigência parcial para inscrição
no concurso para obtenção do título de
Livre Docente, junto ao Departamento de Administração
Escolar e Economia da Educação (EDA) na área
de conhecimento Cultura e Educação: Teoria
da Complexidade e Cultura Escolar, e Imaginário
e Processos Simbólicos, 2004)