marculus
prof. dr. marcos ferreira santos
agenda
trajetória
lab_arte & cice
textos
mares
poemas
canciones
bibliografias
homenagens a gilbert durand e ravi shankar

gilbert durand, 2012


ravi shankar e sua filha, anoushka shankar, 2012


Crepúsculo de dois mestres
marcos ferreira-santos

Gilbert Durand (1921-2012) e Pandit Ravi Shankar (1920-2012) morreram no último mês de dezembro. Nascimentos próximos, haviam ultrapassado a barreira dos 90 anos ainda com aguda lucidez. Um bretão partisan (participou da resistência francesa durante a segunda guerra frente ao pensamento totalitário do nazi-fascismo) e o outro brahmane bengali (casta espiritual indiana na região de Bengali) filho de um violinista.

Durand, discípulo de Gaston Bachelard, segue a carreira acadêmica com uma filosofia da imagem lastreada no imaginário e na mitologia, amigo de Henry Corbin (primeiro tradutor de Heidegger e investigador em profundidade do anarquismo islamista conhecido como tradição "sufi", filiado ao Circulo de Eranos (1933-1988) em Ascona, nos legou uma obra virginal, visceral e ainda fértil para a compreensão do ser humano em sua multiplicidade. Seu clássico "Estruturas antropológicas do Iamginário" (1960) foi tema de uma discussão que propusemos em vários seminários em evento comemorando os 50 anos da obra no decorrer de 2009 e 2010 no CICE - centro de estudos do iamginário, cultura e educação e Lab_Arte - laboratório experimental de arte-educação e cultura, ambos da FE-USP.

Ravi Shankar, músico e compositor, segue o aprofundamento em seu instrumento de vida, a sitar, instrumento clássico indiano, e apresenta ao mundo um universo sonoro absolutamente distinto e sagrado em relação à música ocidental.

Além da proximidade cronológica e do enfrentamento com a "velha da foice" no mesmo mês; bem como, além de serem dois expoentes de minha predileção e minha formação pessoal, no trânsito entre música e mitologia; estes dois nobres senhores tem em comum o impar de continuar a tradição do diálogo entre o Ocidente e o Oriente.

Tanto Gilbert Durand como Ravi Shankar estabelecem em suas obras, e cada um ao seu modo, um diálogo profundo e respeitoso entre as duas tradições, não apagando as nuances no interior de uma e outra, mas profundizando o viés criativo (poiésis) que irmanam ambos os espaços e tempos, e sempre, também pelo cultivo da amizade (philia), expresso também na concepção do ashram.

Durand esteve várias vezes no Brasil e de sua obra surgiram vários núcleos de investigação sobre o imaginário, sobretudo a partir do trabalho pioneiro de Daniele Rocha Pitta na UFPE. O casamento com a chinesa, Chaoying Sun, casamento também intelectual, intensificou o diálogo com o Oriente no espírito de sua obra, a exemplo de "A fé do sapateiro" (1984), "Belas Artes e Arquétipos: a religião das artes" (1989), "Mito, temas e variações" (2000, já em co-autoria com Chaoying Sun).

Ravi Shankar foi guru de George Harrison, na época ainda integrante do grupo musical inglês, Beatles, e a partir da participação nos efervescentes festivais de Monterrey (1967) e Woodstock (1969), depois de várias turnês pela Europa, ganha popularidade e respeito. Organiza com George Harrison o também lendário Concerto de Bangladesh em agosto de 1971 contando com um público de 40.000 em Nova York, o primeiro concerto beneficente desta envergadura na história e cujo fundo foi administrado pela UNICEF. Além dos duetos com vários músicos ocidentais, entre eles o violinista Yehudi Menuhin e o compositor minimalista Phillips Glass (o album Passages, 1990), teve papel importante na preservação e divulgação da música clássica e popular indiana, reconhecido pelo governo indiano. Compôes três sinfonias para sitar e orquestra, além de várias trilhs sonoras, inclusive a do filme Gandhi (1982). Um dos álbuns de mais intenso diálogo entre Oriente e Oriente é "Towards the Rising Sun" (1996), com os virtuoses Hosan Yamamoto (flauta shakuhachi) e Musumi Miyashita (koto). Sua filha, também citarista, Anoushka Shankar (1981) continua a tradição de seu pai incluindo diálogos entre a sitar e o flamenco.

Notas musicais constelam imagens no crepúsculo de dois mestres.


(aproveitamos para concentrar em seguida algumas homenagens à memória de Gilbert Durand)


       

Durand, para sempre nosso mestre
Ana Tais Portonova Barros
Grupo Imaginalis

Gilbert Durand morreu na última sexta-feira, dia 7 de dezembro, cercado por seus próximos. Foi sob seu sopro inspirador que nasceu o Imaginalis, grupo de estudos sobre Comunicação e Imaginário. Como nós estamos órfãos, muitos outros pesquisadores filhos de Durand também estão.

Suas ideias, desafiadoras e vivificantes, eram desconfortável nos anos 1960, postulando a dinâmica social através de um mito diretor, já um tanto degradado e enrijecido, mas ainda mito, que ditaria as regras, enquanto um outro mito, com toda a sua pujança contestatória, aguardaria no inconsciente antropológico o momento de fazer sua aparição.

A obra de Durand encontrou terreno fértil para florescer ao redor da mesa de Eranos, junto com Mircea Eliade, Henri Corbin, Jung e mais meia dúzia de pensadores brilhantes que se reuniam para, como disse Durand (Structures Éranos I. Paris, La Table Ronde, 2003), expressar "[...] uma verdade que não se ousava dizer livremente então nas universidades." A atração desses pensadores pelo hermetismo, pela alquimia e pela gnose se explicava porque essas teorias não olhavam para o mundo como uma longa cadeia racional, e sim como um jogo de homologias. Há muitas consequências esperando serem tiradas da fantástica transcendental proposta por Durand, inclusive e especialmente no campo da Comunicação, esta fábrica de mitos contemporânea. Isso é trabalho para muitos anos de pesquisa, ainda, à qual nos lançamos com entusiasmo como tem sido até agora.

Por ora, queremos nos aproximar humanamente de nosso mestre. Escolhi para isso a sua narrativa singela da primeira vez em que foi a Eranos, às margens do lago Maggiore, em Ascona, na Suíça:

"A aparição insólita dos fios elétricos foi brutal, em plena natureza selvagem. Andamos a pé e vinte metros mais abaixo, à esquerda, o pequeno painel timidamente escondido entre os cedros: "Éranos". A pequena porta era mágica: assim que ela foi fechada, os ruídos e incidentes da estrada desapareceram. Um silêncio úmido e quente, na penumbra da manhã, destilava um pesado perfume de cânfora e de canela. Descemos com nossas malas. Bem rápido, "os Durand" foram anunciados, as portas se abriam, nós éramos interpelados. Corbin estava lá. Instalei-me no alto da casa, em um pequeno quarto com antecâmera. O lago se movia suavemente dois andares abaixo, um dos quais era a recepção, o outro a cozinha! [...] E eu adivinhava ao longe, por entre a bruma da água e os entrelaçamentos de um enorme eucalipto, o grande lago em preguiçoso suspiro, e ao sul a presença da "ilha verde"... Eu não sabia que durante vinte e cinco anos, esta modesta mansarda seria o meu chão..."

vide site: http://www.imaginalis.pro.br/noticias_detalhe.php?idEvento=3




Homenagem a Gilbert Durand, mestre do imaginário (1921-2012)

Guilherme Mirage Umeda (ESPM & Lab_Arte)

Não deixa de ser um tanto irônico que em um mundo assolado pelo domínio audiovisual e que se autointitula, com certo orgulho, de “sociedade da imagem”, tenha se gerado tão pouca repercussão midiática sobre a morte de um dos mais influentes teóricos do imaginário. Gilbert Durand, pensador erudito e versátil, lega-nos uma obra monumental que consolida os esforços de tantos outros intelectuais (dentre eles, seus companheiros no quase mítico Círculo de Eranos, incluindo Carl Gustav Jung, Mircea Eliade, Henry Corbin, Joseph Campbell e Andrés Ortiz-Osés) na reabilitação da imagem frente à desconfiança com que o racionalismo iconoclasta a encarava.

No Brasil, o resgate da imagem e de seu “alegre saber” frente à tradição letrada do pensamento ocidental encontrou solo fértil, o que contribuiu para tornar as ideias de Durand relativamente populares nos círculos universitários. Seus ensinamentos tornaram-se a base comum nos quais se fundam uma série de grupos de estudos dedicados ao imaginário no país, como a Associação Ylê Setí do Imaginário, o CICE e o Lab_arte (Centro de Estudos do Imaginário, Cultura e Educação e Laboratório Experimental de Arte-Educação & Cultura, ambos constituídos na faculdade de Educação da Universidade de São Paulo), o Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre o Imaginário (Universidades Federal de Pernambuco), o GEPI (Grupo de Estudo e Pesquisa sobre o Imaginário – Universidade Federal Fluminense), dentre outros. Em 2010, celebraram-se os 50 anos de publicação de “Estruturas Antropológicas do Imaginário”, texto seminal do antropólogo francês no qual propõe sua arquetipologia que até hoje serve de chave interpretativa para muitos dos teóricos que se debruçam sobre o campo. Uma série de conferências organizadas pelo CICE e o Lab_arte e com a participação de pesquisadores de diversos outros grupos destacaram os evidentes méritos desta obra e também colocaram em circulação alguns dos inúmeros estudos que derivam do nobre tratamento durandiano às imagens.

Enquanto a filosofia, a antropologia e até o senso comum atribuíam à imaginação epítetos como “férias da razão”, “pecado contra o espírito”, “infância da consciência” ou “louca da casa”, Durand buscava redimi-la como elemento-chave na compreensão da psique humana em sua complexidade e em suas possibilidades de abertura interpretativa. O “adultocentrismo” que conduz o ser humano à racionalização não representa uma evolução inequívoca do pensar; ao contrário, pode ser revelador de um estreitamento do belo sentido das metáforas proliferadas no pensamento infantil e que nunca abandona por completo o homem maduro. Em minha lembrança – que de modo bachelardiano às vezes imagina –, Manoel de Barros conta a expressão de uma criança sobre a borboleta: “olha as cores se avoando!” A carga semântica de imagens como essa, tão prenhes de sentido, corroboram a noção de Gaston Bachelard, não por acaso mestre de Durand, de que todo excesso de infância seja o germe de um poema.

Afastando-se da psicanálise de cunho freudiano e aproximando-se de Piaget, Durand descarta as teorias que atribuem à repressão das pulsões inconscientes as fontes da imaginação, como se o conteúdo onírico estivesse em constante fuga envergonhada da censura do ego. Considerar o imaginário em sua positividade, naquilo o que cria de mundos em lugar daqueles que esconde: eis o projeto durandiano. E nenhum método pode dar conta de tal projeto senão o mergulho sincero e aberto no mar de imagens que vibram no trajeto humano: “Para poder ‘viver diretamente as imagens’, é ainda necessário que a imaginação seja suficientemente humilde para se dignar encher de imagens”.

Não viveríamos, assim, um momento histórico privilegiado, este no qual a explosão informacional nos coloca diariamente em contato, em todo lugar e a todo tempo, com um sem número de imagens? É o próprio Durand que em seu opúsculo “O Imaginário” nos fornece uma resposta possível, nem tão otimista: todo o valor da imagem está no julgamento de valor de quem o interpreta. A recepção de imagens enlatadas, como as concebidas em sistemas gerativos de tão vigorosa produtividade, tende a criar espectadores paralisados, cuja voracidade no consumo das imagens não é acompanhada pelo apetite de delas se sorver. “Olhar de peixe morto”… E se, por um lado, o silêncio sobre sua morte faz-nos lamentar a injustiça, por outro, pode ser mesmo indicativo da acurácia de seu próprio diagnóstico de nossos tempos.

Agora, que a inelutável presença de Cronos aborda o grande mestre, que a face do tempo é o escuro da morte, ressentimos a ausência dessa voz que tão bem representou o gênio humano. Caminham hoje, obra e homem, seus próprios percursos: obra, pela transcendência heroica, como um gládio que empunhamos na procura por um antídoto do tempo; homem, pela “segura e quente intimidade da substância”…





In Memoriam: Gilbert Durand (1921-2012)

Alberto Filipe Araújo (Portugal)
“O humanismo autêntico é aquele que sabe levar em conta a fraqueza e tudo aquilo que constitui um erro aos olhos da ciência. É preciso um pouco de tudo para fazer um homem”
Gilbert Durand

Palavras em Andamento
1º Andamento: sob o signo da neve

O Maître morreu em dezembro numa sexta-feira, pelas 10h00 da manhã, no hospital de Rumilly (Alta Saboia – França), cidade vestida de branco. Gilbert Durand, e que alguns de nós conhecemos nas mais variadas circunstâncias, partilhou conosco o seu imenso saber interdisciplinar, desde a antropologia cultural à sociologia de profundidades, passando pela hermenêutica instaurativa, pela mitologia, entre outros domínios científicos. Gilbert Durand era um amante da vida campestre, à semelhança do seu Mestre Gaston Bachelard, e também, como não podia deixar de ser, da neve e dos sabores que a mesma destila. Como bom montanhês que era, a neve como um mar onde deleitadamente ele gostava de banhar-se, assumiu no seu imaginário um silêncio branco e uma luminosidade esbranquiçada: “O silêncio da neve é, de tal modo, primordial que remete, imediatamente, a imaginação para ‘o aterrador silêncio das solidões infinitas’ e para o cortejo interstelar das imagens cósmicas” (Psicanálise da Neve, 1953).
Gilbert Durand repousa nas alturas de Moye em frente às suas queridas montanhas decoradas de neve que ele tanto amava! Até sempre Querido Maître e que a música de do seu Wagner na qualidade de Hermes (na sua qualidade de Seelenführer), que o Professor tanto amava, o acompanhe pela Eternidade dos tempos…

2º andamento: sob o signo da Obra

Antropólogo e sociólogo francês, nasceu em Chambéry, Savoie (França), no dia 1 de maio de 1921 e morreu em Moye - Alta Saboia no dia 7 de dezembro de 2012. Agregado em Filosofia e Doutor em Letras (Docteur ès lettres), Gilbert Durand foi Professor titular universitário (Sociologia e Antropologia Cultural) da Universidade de Grenoble II, hoje Universidade Pierre Mendès, França, desde 1970, tendo concluido a sua carreira como Professor emérito. Desde 1964 até ao ano 1988 foi membro do Círculo de Eranos (Ascona-Suíça), fundado em 1933 por Olga Frobe-Kapteyn para estudar, com o apoio de C. G. Jung e Rudolf Otto, os aspetos herméticos e simbólico-culturais da obra junguiana. Fundou em Grenoble (1966), com Léon Cellier e Paul Deschamps, o Centre de Recherche sur l’Imaginaire (C. R. I.) que continua até aos dias de hoje sediado na Universidade Stendhal (Grenoble – França) sob a direção de Philippe Walter
Pensador original e denso, Gilbert Durand começou por ser discípulo de Gaston Bachelard, Mircea Eliade e, indiretamente, de Jung, abrindo-se, mais tarde, ao pensamento de Henry Corbin, Georges Dumézil, Claude Lévi-Strauss, Adolphe Portmann, Stéphane Lupasco e também àquilo que designou pelo «novo espírito científico depois de Bachelard», que inclui nomes tão diversos como os de René Thom, Bernard d’Espagnat, Fritjof Capra, Gerald Holton ou Rupert Sheldrake.
De destacar que Gilbert Durand recebeu, em 2000, a condecoração de “Justo entre as nações” atribuída por Yad Vashen. A medalha foi-lhe entregue numa cerimónia pública em 2001 na cidade de Chambéry (França) no dia 14 de março de 2007. Também possuía a condecoração de Comendador da Legião de Honra pela sua ação na Resistência francesa desde o fim do ano de 1940 no Maciço do Vercors.
O ponto de partida da sua obra são as estruturas antropológicas do imaginário, que se apresentam como uma classificação sistemática das «imagens arquetípicas» (imagens primordiais) tipificadas pelas estruturas figurativas, entendidas como «generalizações dinâmicas e afetivas da imagem» (estruturas heroicas, místicas e dramáticas) que dão conta, dado o seu enraizamento no trajeto antropológico (definido como a «incessante troca que existe ao nível do imaginário entre as pulsões subjetivas e assimiladoras e as intimações objetivas que emanam do meio cósmico e social»), do imaginário, que não é outra coisa que este trajeto onde a representação do objeto se deixa assimilar e modelar pelos imperativos pulsionais do sujeito, e no qual, reciprocamente, as representações subjetivas se explicam «pelas acomodações anteriores do sujeito» ao meio objetivo.
Muito ligada a esta conceção de imaginário encontra-se a conceção simbólica da imaginação, enquanto atividade dialética do espírito, que tem como funções não só negar eticamente o negativo (p. ex., a morte, a injustiça), como também fazer o equilíbrio entre termos contraditórios com vista a melhorar a condição sempre precária do homem (fator de equilíbrio psicossocial). Por isso, a imaginação simbólica está em posição privilegiada não só para ver (poder «visionário») para além das contradições e polos opostos (por ex., os regimes noturno e diurno), mas também para os superar numa coincidentia oppositorum através de uma lógica não-bivalente e do terceiro incluído.
Este seu posicionamento levá-lo-ia a pôr em questão tanto o «estruturalismo formalista» de Greimas e Jakobson, como o «estruturalismo antropológico» de Levi-Strauss, contrapondo-lhes aquilo a que chamou de estruturalismo figurativo, que se apoia na tese da primazia do sentido simbólico (semantismo das imagens) ou figurado sobre o sentido próprio ou literal. Por outras palavras, Durand opõe à «estrutura formal» uma estrutura pensada em termos de conteúdos dinâmicos, por isso dialética e transformacional, continuamente aberta ao semantismo simbólico-arquetípico ligado ao trajeto antropológico. Isto levou-o a fundar um novo espírito antropológico baseado na tradição hermético-gnóstica e que se opõe à filosofia, agnóstica e iconoclasta de uma certa tradição ocidental.
Nesta perspetiva, procurou recuperar o pensamento da tradição que, ao recusar a divisão entre as ontologias psicologista e culturista, propõe, como alternativa, uma «ontologia simbólica» que inclui já as outras duas. Este pensamento, baseado no regime noturno da imagem, no conhecimento simbólico e no princípio do terceiro incluído, é o do mito, sistema dinâmico de símbolos e arquétipos que tende a constituir-se em discurso, em narração, apresentando-se mesmo como um esboço de racionalização, enquanto discurso que é, e no qual os seus símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias. Com essa intenção, assim como na expectativa de modernizar a tradição, criou a sua própria hermenêutica, que denominou de mitodológica. Esta assenta no pressuposto geral de que não existe corte entre o texto (ideologias, pedagogias, literaturas) e o contexto que o produz (civilização sociológica). A mitodologia é constituída por dois ramos metodológicos, que são a mitocrítica, próxima da «psicocrítica» de Charles Mauron, que centra o processo compreensivo sobre o significado mítico-ar-quetípico inerente à significação de toda a narração literária, política, pedagógica ou de outro tipo, è a mitanálise, que é um método psicossociológico vocacionado para extrair os mitos diretores sempre presentes nos «magmas» sociohistóricos-culturais. A mitanálise converte-se no método da sociologia das profundezas (com as suas três tópicas: ego, superego e inconsciente sociais), permitindo esta ordenar e apreciar os referentes (arquétipos sociais) e as intenções míticas que circulam no interior de uma determinada sociedade, ou, se se preferir, nas suas profundezas.
Os seus últimos trabalhos têm sido dedicados à problemática da arte, visto o autor. encarar o domínio artístico como «viveiro» fértil de «imagens obsessivas», de «ilustrações culturais» e, por fim, de mitos vivos sempre abertos à universalidade arquetipal.

3º andamento: sob o signo da Ponte e do Poço

Se procurarmos dois símbolos que nos ajudem a compreender mais profundamente a Obra do Maître surgem, entre outros, dois símbolos plasmadores da riqueza hermenêutica que a Obra durandiana em si contém, a saber o da “ponte” e o do “poço”:
A “ponte” estabelece a união entre duas margens diferentes que possam, ou não, envolver o elemento água, une portanto aquilo que está separado e ou longínquo. Ela é símbolo de comunicação e de união, simboliza também a viagem ou a travessia, religa aquilo que é oposto. Trata-se, como é conhecido, de um símbolo de transição e de transformação, entre outros significados possíveis. Neste contexto, Gilbert Durand, atendendo ao seu contributo interdisciplinar, podia bem ser designado de illustrissimi pontifex, construtor de pontes, quer mitológicas, quer simbólicas.
Já o símbolo do “poço” como tendo um fundo sem fundo (o Urgrund) enquanto símbolo feminino, vaginal e profundo das “potencialidades úteis”, revela segredo, mistério, obscuridade, promessa de esperança da água sempre tão preciosa a todas as formas de vida (ar, terra e água). Exerce tanto o fascínio como o terror ou o medo e o receio. É algo de tremendo que igualmente suscita a nossa curiosidade e síntese dos Três Mundos (céu-terra-inferno). Contém uma água fria, senão mesmo gélida, que para ser extraída exige engenho, perseverança, disciplina, enfim trabalho e humildade. A “água do poço” não será ela também um bálsamo que nos refrescará e nos protegerá da fúria iconoclasta dos tempos solitários e tecnologicamente devoradores? Não será essa mesma “água do poço” que nos protegerá, para lembrarmos Slavoj Zizek, da ira dos quatro cavaleiros do apocalipse pós-moderno (a crise ecológica mundial; os desequilíbrios do sistema económico mundial; a revolução biogenética e, por fim, das diversidades sociais explosivas)? Não precisaremos nós da “água do poço” para saciar a nossa sede de sentido(s) mítico-simbólicos e não significará ela, em última instância, uma “ontologia simbólica”, uma espécie de “Único Sabor”, para lembrarmos aqui o poeta António Ramos Rosa que Gilbert Durand gostava de citar quando falava do mito, que diz “O sabor antes da consciência, antes de tudo/ outra vez esse sabor submerso, esse sabor do fundo/esse sabor bem longe, esse sabor total”.

Alberto Filipe Araujo (Portugal)
Maria Cecília Sanchez Teixeira (Brasil)
Altair Macedo Lahud Loureiro (Brasil)
Alexandre Vergíno Assunção (Brasil)
Alexander Freitas (Brasil)
Ana Taís Martins Portanova Barros (Brasil)
Catarina Sant’Anna (Brasil)
Cátia Andreia Assunção (Portugal)
Danielle Perin Rocha Pitta (Brasil)
Denis Domeneghetti Badia (Brasil)
Eunice Simões Lins Gomes (Brasil)
Fernando Fraga Azevedo (Portugal)
Iduína Mont’Alverne Chaves (Brasil)
Jean-Martin Rabot (Portugal-França)
João de Deus Vieira de Barros (Brasil)
José Abilio Perez Junior (Brasil)
José Augusto Ribeiro (Portugal)
José Carlos de Paula Carvalho (Brasil)
Julvan Moreira de Oliveira (Brasil)
Lígia Rocha (Portugal)
Lúcia Vaz Peres (Brasil)
Luis Garagalza (Espanha)
Marcos Ferreira-Santos (Brasil)
Maria Cristina Álvares (Portugal)
Maria de Fátima Lambert Alves de Sá (Portugal)
Maria do Rosário Silveira Porto (Brasil)
Maria Theresa Strôngoli (Brasil)
Michelle Jacquet (França)
Moisés Silva Fernandes (Portugal)
Rogério de Almeida (Brasil)
Sandra Maria Patrício Vichietti (Brasil)
Sueli Aparecida Itman (Brasil)
Tania da Rocha Pitta (França-Brasil)


"A todos os amigos do Imaginário,
O nosso grande mestre partiu. Ele antes soube do nosso empenho, aqui no Brasil, em atenção à sua saúde.
Ficamos com o entusiasmo em divulgar sua obra.
Grande abraço comovido e agradecimentos a todos."
Danielle Perin Rocha Pitta, associação Ylê Setí do Imaginário


Festejando a vida de Durand
Eliana Atihé

Uma vida longa, bem vivida, plena, fecunda, formidável em sua simplicidade profunda, em sua despretensão e serviço à realidade. Nenhuma lamentação cabe aqui, a meu ver, neste momento
Durand faz jus àquele ko-an do Manoel de Barros que diz: "Não preciso do fim para chegar". Todavia o fim chegou para ele e, consequentemente, também um novo começo se avizinha.
Essa é uma morte que, se somos realmente pessoas a serviço do imaginário no mundo, deveria ser experimentada, por nós, como uma grande festa em agradecimento aos deuses pela vida desse mestre modesto
e pela encomendação de sua alma, que volta ao coração do cosmos para renovar-se. Ficamos nós aqui, agora ainda mais comprometidos com a transformação do nosso cotidiano, já que o mestre se foi. Cada vez mais me convenço de que, a cada pensamento que dedico ao imaginário, ele demanda de mim uma ação, uma prática de equilibração, uma ressonância na minha existência e na existência de minha comunidade de destino. Estou hoje muito feliz por ter conhecido Durand e acolhido o imaginário, acima de tudo, em minha alma, como um modo de viver e não apenas uma teoria. Alguns de meus professores, durandianos de coração, souberam encarnar Durand para mim e eu lhes sou muito grata por isso. Com Nelson Mandella bem doentinho aos 94, Oscar Niemeyer tendo feito a passagem aos 104 e Durand batendo um papo com Caronte, a caminho do outro lado, nosso mundo fica mais besta, é verdade. Por outro lado, nosso chamado a viver plenamente fica ainda mais enfático. Axé, Durand! Vá com a Deusa! Rogue a ela por nós!


Chers amis,
J'ai la tristesse de vous faire part du décès de Gilbert Durand le vendredi 6 décembre 2012 entouré des siens. Les obsèques auront lieu mardi 11 décembre à 14h30 à l'église de Rumilly, près de sa maison de Moye. Je représenterai aussi notre association et transmettrai à sa famille notre sympathie attristée.
Gilbert Durand, comme l'a exprimé Jean Libis, " incarne une des importantes mouvances qui ont pu se réclamer de Bachelard" et son oeuvre d'anthropologie de l'imaginaire s'enracine profondément dans les intuitions bachelardiennes, comme l'atteste sa belle étude "Science et conscience dans l'oeuvre de Gaston Bachelard" de 1964, publiée dans les Cahiers internationaux de symbolisme et republiée dans L'âme tigrée, Médiations 1980. J'ai eu la joie de partager encore quelques heures d'amitié nostalgique avec lui dans sa maison savoyarde le 20 mars dernier dont vous trouverez une dernière image. Nous reviendrons ultérieurement sur sa place dans l'héritage bachelardien.

Jean-Jacques Wunenburger
Président de l'Association Amis Gaston Bachelard


agenda trajetória lab_arte & cicecursos & palestraslivrostextos